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A crise de 1929 em 2029?

Agenda liberal destravará a economia, mas o desequilíbrio futuro cobrará seu preço.

Conversa de Mercado / 15 Março 2019 - 18:32

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A precarização das relações trabalhistas, a redução do número de vagas formais, a reforma da Previdência, a agenda liberal do estado e as novas tecnologias que dão oportunidade de as pessoas se virarem por conta própria, além da própria postura da chamada geração Y que não pensa em carreira, mas sim em ganhos imediatos, são alguns dos fatores que podem levar à bancarrota da economia brasileira nos próximos dez anos. O século XIX pode estar mais próximo do que se imagina, o que culminará na crise de 1929, um século depois.

Relembrando... A década de 1920, aparentemente, foi marcada por um período de grande prosperidade nos EUA, mas tal tendência não se demonstraria sustentável por muito tempo. Os anos dourados refletiram-se no chamado american way of life, em que um a cada seis norte-americanos tinha automóvel por volta de 1929, e os bens de consumo duráveis ou semiduráveis atulhavam as novas casas dos subúrbios das cidades industriais. Para se ter ideia, entre 1926 e 1929, os Estados Unidos responderam por mais de 40% da produção mundial de industrializados, e seu PIB crescera 62%.

Apesar de tanta prosperidade, a economia norte-americana demonstrava problemas estruturais: baixa taxa de lucro, alto grau de concentração de renda e razoável nível de desemprego, que variou entre 7% e 12%. Além disso, os salários reais eram decrescentes. O agravamento da má distribuição de renda foi um dos grandes causadores da crise. A produção era crescente, mesmo com a renda cada vez menor. Como consequência, houve o descasamento claro de oferta e demanda e o crash de 1929.

Na época, ainda não havia Previdência Social, política de salário mínimo, garantias a idosos, desempregados e inválidos, dentre outros direitos. Para superar a crise, que levou o PNB dos EUA a recuar 46% entre 1929 e 1933, elevou o desemprego de 1,5 milhão para 13 milhões de pessoas e fez os salários recuarem em 60%, as práticas liberais foram deixadas de lado e se adotou o chamado Estado de Bem Estar Social, com seus acertos e erros.

O Brasil agora vai na direção pré-crise de 1929, ansiando o retorno do liberalismo puro. As políticas são voltadas para a redução do papel do Estado na economia, o que envolve o necessário saneamento das contas públicas. A Reforma da Previdência é uma delas. Caso não seja feita, o Estado quebra. A aposentadoria do brasileiro está comprometida. Se a proposta passar, o descanso ocorrerá somente aos 65 anos, caso não ocorra outra reforma no meio do caminho. Ao mesmo tempo, com a alta taxa de desemprego, muitos buscam trabalho informal, o que compromete as contribuições para a aposentadoria futura.

Os últimos dados do IBGE confirmam esta tendência. A taxa média de desocupação em 2018 foi a maior dos últimos sete anos em 13 capitais do país. Dezenove tiveram índice de desemprego maior que a média nacional de 12,3% no ano passado. O problema é maior nos grandes centros urbanos, acompanhando as maiores concentrações da população. O Sudeste foi a região com maior proporção de capitais com recorde de desemprego em 2018. O número de trabalhadores ocupados com carteira de trabalho assinada foi o menor em sete anos no Nordeste, Sudeste e Sul.

A carteira de trabalho assinada teve queda em todos os estados entre 2017 e 2018. Desde 2014, as perdas são ainda mais expressivas, o que demonstra a qualidade do trabalho que se vem gerando no país. Em 2018, eram 11,2 milhões de pessoas sem carteira, ou 25,4% do total. Segundo o IBGE, dentre os 91,8 milhões de pessoas ocupadas em 2018, 25,4% (23,3 milhões de pessoas) trabalhavam por conta própria.

Os dados de emprego mostram a tendência da informalidade, que provê renda no presente, mas compromete o futuro. A flexibilização das relações trabalhistas e a busca por sobrevivência, além das novas tecnologias como o Uber, faz com que isso se solidifique cada vez mais. Hoje, o motorista do Uber tem renda, mas e se quebrar a perna, cadê o seguro-desemprego? Onde ficam os benefícios que garantem a solidez do consumo?

Assim como nos EUA dos anos 1920, se o governo adotar a agenda liberal prometida, destravará a economia brasileira nos próximos anos. Aumentam a produção e o investimento... pujança! As contratações e a renda, entretanto, se tornarão precarizadas e, para um país que já vive uma situação de elevada concentração de renda, o desequilíbrio futuro cobrará seu preço.

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