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A carona do juiz

Por Eduardo Marinho.

Opinião / 11 Janeiro 2019

Uma vez, na Dutra, eu ia de Resende pro Rio, de carona e à noite. Parou um carro, corri como se deve quando pára um carro, carregando a mochila. A porta abriu, o cara acendeu a luz, vi um cara simpático, “bem vestido”.

Vai pra onde? Pro Rio. É pra lá que eu vou. Então dá licença. E sentei no banco do carona, mochila entre as pernas. Reparei que tinha um cabide na janela atrás do motorista, coberto com um plástico, imaginei um paletó. E era mesmo.

 

A aversão da mentalidade dominante

sinaliza o que tem de bom na sociedade

 

Como sempre, me disponho a conversar nas caronas, quem dá carona tá a fim de papo e esse era meu dever, que eu cumpria com prazer. Muitas histórias ouvi, contei e vivi em tantos anos. Falamos sobre a sociedade, as injustiças sociais, as mentiras midiáticas, fui vendo que o cara era bem esclarecido.

Mas o linguajar o denunciava. Acabei perguntando se ele era da área jurídica. Ele, me pareceu que um pouco constrangido, revelou que era juiz. Eu era um hippie, na visão dele, a quem ele tava dando uma carona. Eu olhei bem pra ele, tínhamos falado da brutalidade policial – com alguns exemplos práticos que eu contei, acontecidos na minha vida – da distância que o sistema jurídico tinha de qualquer ideia de justiça, envolvido em interesses econômicos, em manipulações de leis, “malabarismos jurídicos”, e da realidade que vive a base da sociedade.

Estava numa situação bem humana, não reconhecia nele nenhuma superioridade sobre mim, era uma pessoa que tava me dando uma carona, eu era quem era, ele era o que ele era, não me importava o que fosse. Nem passou pela minha cabeça me conter pra falar. Eu olhava de igual pra igual, de pessoa pra pessoa.

Juiz? Tu é juiz? Ele confirmou com a cabeça. Tu não sente uma vergonha social, não? Ele sorriu. Entendeu o que eu dizia. Sinto, sim. Conhece a associação juízes pela democracia?, ele perguntou. Não, nunca nem ouvi falar. Ele me deu um cartão, se informe, tem exceções no meio jurídico também.

Depois vi, uma associação desconsiderada no meio jurídico predominante, ironizada, tolerada como fora da realidade, marginalizados de elite, com direitos e privilégios sociais, o que aumenta, a meu ver, a responsabilidade social.

A aversão da mentalidade dominante sinaliza o que tem de bom na sociedade, a difamação e o preconceito muitas vezes caem em cima do que há de humanista, de sensível à realidade e conscientizador, espalhador de luzes sobre as trevas de ignorância lançadas nos olhos da sociedade como um todo. Foi um de tantos encontros, nunca mais vi o cara.

 

 

Eduardo Marinho

Artista de rua e escritor nas horas vagas, mantém o site https://observareabsorver.info