A busca de novos sabores nos extremos norte e sul do Chile

Teriam os vinhos do Valle de Limarí os poderes alucinógenos do Valle del Encanto?

Vinho etc / 18:51 - 30 de ago de 2019

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Chegamos ao último artigo sobre o Chile de uma série de cinco, em que mostramos a crescente diversidade deste país vocacionado à vitivinicultura. Vou falar agora de um novo Chile, de lugares que correspondem menos ao estilo consagrado pelo Valle Central e que aparecem como novas possibilidades degustativas, fruto do desenvolvimento e da ousadia da moderna enologia. Os vinhedos mais costeiros de Casablanca e San Antonio, tratados no último artigo, já nos apontaram um Chile de vinhos mais frescos, e isso também é um resultado encontrado nessas regiões.

O Norte do Chile começou a ser explorado para a produção de vinhos finos pela Viña Francisco Aguirre em 1995. Causou surpresa e desconfiança esse empreendimento, em função de ser uma região quente, quase desértica, tradicionalmente associada à produção de uvas para pisco e vinhos populares. Mas o potencial estava lá. Falamos do vale do Rio Limarí, cuja bacia é ampla e aberta ao mar, contando com setores planos e encostas que recebem uma adequada ventilação da costa do Pacífico, dadas as baixas altitudes da Cordilheira da Costa ao norte. Isso é fundamental para refrescar o clima e os vinhos. Há também o fator desértico, que colabora para a sanidade das vinhas, já que por ali temos uma precipitação de cerca de 94mm anuais. Finalmente, os solos também favorecem a viticultura, pois se trata de uma das regiões com maior presença de calcário no Chile.

A paisagem do Valle Limari é exótica: muitos cactos e vegetação escassa e uma fauna que nos é estranha, mas ao mesmo tempo fascinante: ovelhas, cabras, lhamas. A região tem importante patrimônio arqueológico, e uma de suas mais destacadas vinícolas é a Viña Tabalí, cujo logotipo traz a imagem de um dos signos esculturados em pedras (petroglifos) do Valle del Encanto – monumento nacional desde 1973 por sua importância para a cultura pré-hispânica.

Segundo lenda local, um bruxo ia beber seu chá de peyote no Valle del Encanto e teve uma alucinação de um encontro com uma bela mulher. Voltava sempre para revê-la e, em uma dessas vezes, caiu das pedras e morreu. O criador da Viña Tabalí, que morreu com apenas 55 anos, tinha o sonho de construir uma vinícola que representasse o Valle del Encanto, suas lendas e tradições, acrescentando-lhe toques de requinte e evolução humana. O local é de fato muito preservado, e os vinhos primam por elegância e toques de mineralidade: brancos da Riesling, Chardonnay e Sauvignon, tintos da Pinot Noir, Cabernet Franc, Syrah e um Malbec sensacional, o Roca Madre, oriundo de vinhedos plantados junto à Cordilheira dos Andes, a 1600m de altitude.

Teriam os vinhos do Valle de Limarí os poderes alucinógenos do Valle del Encanto? Creio que alguns, sim, especialmente se degustados in loco, pois, na minha opinião, os gostos e efeitos dos vinhos variam ao curso de suas experimentações.

Acima do Limarí, está o Valle de Elquí, que já não se trata da região produtora mais setentrional, mas que ainda assim tem produção recente. A proximidade e influência fria costeira também se faz sentir e gratifica os vinhedos. Bons resultados têm sido alcançados pela Viña San Pedro e Viña Falernia, esta com sede na região, que conta com vinhos de excelente relação preço/qualidade, importados pela Premium Wines no Brasil. Destaque para vinhos frescos e minerais da Sauvignon Blanc, além Pinot Noir e Syrah.

Mais ao norte, quase na fronteira com o Deserto de Atacama, duas novas regiões: Valle de Huasco e Valle de Copiapó, apresentando certas semelhanças de solo, clima e cepas com os vizinhos.

No extremo oposto, o sul do Chile também estende suas fronteiras para o vinho. Primeiramente, por uma de suas regiões vitivinícolas mais antigas, que vem sendo redescoberta para a produção de vinhos de qualidade. O Valle de Itata é localizado geograficamente na região de Bío-Bío, perto da cidade de Talca, e tem um clima mediterrâneo úmido, apresentando temperaturas mais baixas que em outros vales e estações bem marcadas. Suas tradicionais castas, de alta produtividade, são a País e a Moscatel de Alejandría, mas há um crescente investimento em outras cepas mais consagradas, que deve ser acompanhado.

Mais abaixo, está o Valle de Bío-Bío, um rio de grade extensão, cujas águas são utilizadas para a fruticultura (cerejas, maçãs, peras). A área apta para os vinhos está próxima à Cordilheira dos Andes, e tem latitude de quase 38°. Ou seja, clima muito frio e que ainda conta com presença de chuvas durante todo o ano, dificultando a floração e a maturação das uvas. As cepas mais aptas são as mais resistentes a climas frios, como Riesling, Gewurztraminer e Pinot Noir.

Finalmente, o Valle de Malleco está a sul ainda de Bío-Bío – uma das áreas mais difíceis da vinicultura chilena, com alta umidade, solos férteis, de origem aluvial e lacustre, e ventos frios da Patagônia. Estes, no entanto, acabam exercendo um contraponto ao excesso de umidade, ao secarem os vinhedos e diminuírem o risco de aparição de fungos. E aí, pergunta-se: por que fazer vinhos em condições tão extremas, quando se tem regiões tão adequadas à produção, sem riscos? Creio que a resposta é a busca pela diversidade, por novos sabores e estilos – desafios que podem gratificar o amante de vinhos em busca de novas sensações.

 

Para saber mais sobre eventos, turmas abertas de formação em vinhos da Cafa Wine School, de Bordeaux, entre outros projetos realizados por Miriam Aguiar, visite miriamaguiar.com.br / Instagram: @miriamaguiar.vinhos

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