A Amazônia não vai perecer, ela é nossa e também de muitos outros

Por Mércio Gomes.

Opinião / 17:50 - 20 de set de 2019

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Para quem tem idade de lembrar, o pavor de que a Amazônia viesse a ser destruída começou ainda na década de 1970, quando, após a abertura da rodovia Transamazônica e dos seus ramais penetrando fundo na mata, onde se instalavam os assentamentos de colonos trazidos principalmente do Nordeste, começou-se a ver o quanto de floresta estava sendo derrubada e consumida por fogaréus gigantescos e incontroláveis dos quais não se via desde a última explosão do Vesúvio!

A memória não pode escapar, nem a inteligência fraquejar, nem a emoção descontrolar, para se tentar entender tudo que se passa por dentro e ao redor dessa triste visão que é uma mata verde e pujante sendo consumida pelo fogo, não, muitas matas, muitas capoeiras de roças velhas, muitos campos já colhidos de milho, soja, algodão, sendo preparados para nova plantação, e muito incêndio criminoso ou provocado por atos fúteis nesses tempos de calor abrasivo, de ventos incandescentes e de secura sem fim.

Não é só a Amazônia, é o Brasil inteiro que sofre pelas queimadas no período de secas, que neste nosso hemisfério sul começa em junho e se dissolve em outubro. Nesse tempo, desde que a agricultura se tornou a base de sobrevivência dos povos indígenas, cerca de quatro, cinco mil anos atrás, derrubar a mata primária ou secundária (capoeiras), deixar os troncos e galhos secando ao calor inclemente do sol, depois tocar fogo em tudo, cuidando de fazer aceiros nas bordas para o fogo não espalhar (e, em alguns casos, encoivarar os restos e queimar o que precisar de novo) tem sido a base do preparo da terra para o plantio em todo o Brasil até muito recentemente.

 

Derrubadas e fogo foram se mantendo e se fortalecendo

como base da agricultura brasileira moderna

 

Foi assim que se plantou mandioca e milho para alimentar o povo, a cana-de-açúcar para financiar a colônia, o algodão para consolidar a economia nordestina e o café para enriquecer o sudeste. Só nos últimos 20 anos é que o processo de queimadas passou a ser visto como deletério ao solo, ao meio ambiente, à biodiversidade, e que talvez não fosse sempre necessário, porém substituível por métodos mais científicos e tecnológicos.

Com efeito, alguma coisa tem sido feita para substituir as queimadas, ao menos para alguns cultígenos, por uma técnica de arrotear a terra com um trator que passa misturando os restos deixados ao fim da colheita com novos adubos e agrotóxicos preventivos. Quem sabe algum dia isso não virará a prática mais comum em nossa agricultura.

Porém, até esse dia chegar, derribar árvores e arbustos e tocar fogo neles e nos restos das colheitas continua porque não tem outro jeito e ao menos favorece tanto a destruição das pragas que atingem as plantações, quanto as cinzas ajudam na fertilização do solo. E essa prática continua a se apresentar como menos custosa.

Assim, queimar, em regiões tropicais e para expandir a agricultura, não era um mal costume ou uma prática errada ou atrasada. Era assim que as lavouras iam sendo feitas no Brasil, concomitante à devastação das florestas, dos cerrados, das matas ciliares, dos agrestes e das caatingas. O Brasil cresceu e sobreviveu desse jeito, e o resultado é que destruiu quase 90% da Mata Atlântica, que se estendia do Rio Grande do Norte até Santa Catarina, penetrando de 20 até 400 quilômetros para o interior, inclusive toda a mata que circundava o rio Doce, o Paraíba do Sul, o Tietê e tantos outros rios.

Do cerrado esparramado entre a Mata Atlântica, a caatinga e a Floresta Amazônica, em diversas variações, já lhe consumiram quase 70%, deixando geólogos e limnologistas do Brasil em pânico. Está faltando água em todo o sertão porque as chuvas já não penetram no solo para formar os lençóis freáticos para abastecer os grandes rios. O rio São Francisco sofre demais. Agora, isto é, praticamente só nos últimos 50 anos, é que chegou a vez de sacrificar em consumo voraz a nossa Floresta Amazônica.

Na verdade, foi um pouco antes dos anos 1960, com a abertura da grande rodovia Brasília-Belém, que as matas ciliares do rio Tocantins sofreriam as primeiras grandes machadadas e serradas do desenvolvimento econômico para o interior. Naqueles anos da construção de Brasília e suas conexões com as capitais amazônidas, tudo era exaltado como aventuroso e epopeico. Derrubar a machado, a possantes motosserras ou até a dinamite castanheiras centenárias de 10 metros de circunferência era descrito como uma vitória digna de ser declamada por Homero. Quando chegaram os tratores descomunais, os grossos correntões de arrastão, o napalm desfolhante, aí ninguém mais segurava o Brasil. Era a vitória do homem contra a natureza!

Um dia, entretanto, os ventos alegóricos do engrandecimento pararam de soprar, e despontaram as nuvens sombrias e tenebrosas das críticas contra as derrubadas e as queimadas. O que parecia adequado e tradicional virou feiura e degradação. As matas antes formosas e pujantes se transformavam em restos de tocos carbonizados, depois em roças temporárias de um a dois anos, em pastos inférteis, em capoeiras abandonadas, em terra dura, nua e árida.

E com isso, já terminado o medo do apocalipse pelas ameaçadoras bombas atômicas da Guerra Fria, surge o apocalipse pela incineração das matas, pela secura das águas, pela morte dos passarinhos por agrotóxicos, pelo efeito estufa e pelo derretimento das calotas polares. Triste novo fim para a humanidade. Muito além do Brasil o mundo se apavorou e apontou seu dedo duro para nós. Destruidores, irresponsáveis!!!! O que fazer?

Por um lado, lamentar e chorar e sofrer inerme e humilhado a marcha de uma tenebrosa insensatez, que não é só nossa, evidentemente, pois o mundo todo está em chamas, da Califórnia, passando pela Europa inteira até a tundra siberiana.

Do fascínio inconsciente que todo ser humano sente há 1.000.000 anos ou mais desde que controlou em seu lar o fogo que o aquecia, que o protegia de ataques de animais, que assava suas caças e cozia seus legumes, esse fogo sacralizado por tantos povos agora augurava um cataclisma que desorientava o fascínio e o transformava em verdadeiro pavor. O medo atávico do fim do mundo pelo fogo, o apocalipse criado pela mão do homem, sem Deus para nos proteger.

Por outro lado, via-se claramente, racionalmente, que sem o fogo não dá para abrir roças para alimentar famílias, nem pasto para criar boi, nem terrenos extensos para se praticar uma agricultura intensa, sustentável e lucrativa. Com a Embrapa pesquisando, descobrindo e adaptando novos cultígenos e novas práticas de cultivo nos mais diversos tipos de terreno, com a logística moderna movendo os produtos para toda parte do mundo e com o beneplácito dos governos auferindo impostos, as derrubadas e o fogo foram se mantendo e se fortalecendo como base da agricultura brasileira moderna, os novos “engenhos”, com seus novos senhores.

Por 50 anos e mais, eis que este é o Brasil rural e profundo com que mais convivemos. O sertanejo não é mais o forte euclidiano, ou o enigmático roseano, ou o cabeça-dura gracilianiano que emergem dos livros dos nossos melhores romancistas. Hoje ele é o peão boiadeiro e o tratorista em cabine refrigerada, cujas dores e amores são cantados por vozes estridentes e lancinantes em palcos armados em rodeios, nas TVs e até nos campi universitários.

E as labaredas de fogo atravessando aceiros e sendo levadas pelos ventos desgovernados viram metáforas das paixões arrebatadoras. Que europeu decadente sabe do desvario de viver perigosamente? Que citadino acabrunhado sob o peso das novas normas entende de paixões flamejantes? Portanto, não é fácil controlar o fogo brasileiro mais profundo e mais lucrativo que temos. Como desmobilizar o fogo amazônico?

Muita gente acha que a racionalidade é o melhor remédio. Que tal fazer um grande estudo de zoneamento ecológico-agronômico para ver onde se poderia plantar ou criar gado e búfalo de um modo sustentável. Me diga antes o que quer dizer sustentável na Amazônia, fazendo favor.

Se a Amazônia vem sendo comida pelas suas bordas lindeiras ao Nordeste e ao Centro-Oeste, haverá o momento em que se deve dar um basta? As terras indígenas já demarcadas nessas beiradas, as últimas a reterem sua cobertura florestal quase intacta, poderão dar conta do estrago feito ao seu redor?

Veja um mapa fotográfico da Terra Indígena do Xingu, verde intacto, contrastando com a devastação acinzentada por todo seu redor! Serão essas terras capazes de ainda guardar e proteger as águas dos grandes rios – o majestoso Xingu; o lépido Teles Pires e o cristalino Juruena que juntos formam o caudaloso Tapajós; o indomável rio das Mortes que deságua no espraiado Araguaia; o profundo Tocantins?

Poderão as nascentes e as vertentes formadoras de afluentes desses rios, que frequentemente vêm de terras já devastadas por fazendas, serem protegidas por matas ciliares por obra da consciência dos fazendeiros? Poderá o gado amazônida ser cercado em pastos menores e aos poucos irem se tornando gado confinado, aos moldes do gado europeu?

Poderão as lavouras temporárias de soja, milho e algodão, que estão fazendo a riqueza do agronegócio, virarem culturas perenes de plantas associadas com matas? E o que dizer da reposição dos nutrientes e da espessura e densidade dos solos imprescindíveis para a sustentabilidade das lavouras e das matas? Haverá como recuperar solos e terrenos devastados demais, deixados ao léu para virarem terras desoladas sem qualquer sentido a não ser esperar o próximo dilúvio?

E tantas outras ideias a mais, vindas dos vários ramos da biotecnologia, da agronomia avançada, da antropologia rural, da história da formação de nossa nação que poderiam ser pensadas por técnicos, ativistas, políticos e administradores nacionais. Temos ou não temos know-how para fazer isso? Que tal fazer um ministério federal para envolver tudo isso, equitativamente, do meio ambiente, da antropologia amazônida, do agronegócio?

 

Não é fácil controlar o fogo mais profundo e mais

lucrativo que temos. Como desmobilizar o fogo amazônico?

 

Entrementes, poucos de nós acreditamos na racionalidade brasileira. Nossa história é formada de páginas e páginas de ideias, de projetos e especialmente de fracassos em muitos campos de nossa vida coletiva. Muitos pensam que só por um mistério qualquer ou um borogodó existencial é que ainda estamos unidos entre nós. Não porque sejamos mais histéricos do que racionais – cada um de nós tem sua dose especial dos dois – mas porque, quando juntos, nosso coletivo político está marcado por imensas contradições derivadas de nossa história de desigualdade social e injustiça.

Por exemplo, pensemos rapidamente na educação pública e nos quantos planos nossos educadores de mentes profundas e humanistas desenvolveram, convenceram os políticos, aplicaram-nos na prática, só para ver tudo se desintegrar lastimosamente, em tão curto tempo que não deixa margem para se constituir um legado real, uma marca indelével e uma base para alguém num futuro qualquer dar continuidade. Quanto mais acreditar em racionalidade no negócio, no fascínio pela aventura, na vontade de ganhar dinheiro rápido, na desconsideração pela vida animal e vegetal, no pouco-caso pela preservação de algo distante e não familiar. Mas, ainda assim, acreditar é preciso.

Por que se importar com o outro, ainda mais quando esse outro não é nem humano? Onde está o humano próximo a nós na Amazônia?

Pois o Brasil, ser coletivo autoassumido, formado de cultura e poder, já produziu algo extremamente inusitado em relação ao outro, a uma alteridade estranha, aparentemente distante e esdrúxula. Esta foi a maior e mais humana façanha jamais construída no Brasil, a qual virou um legado que algumas gerações passadas nos deixaram pelo exemplo de um brasileiro extraordinário, o Marechal Cândido Rondon.

Esta façanha é a de mirar os povos indígenas que habitavam e habitam o território compreendido na nação brasileira, reconhecê-los como os habitantes originais desta terra e, portanto, os brasileiros natos de primeira geração, estender os braços abertos para um abraço de confraternidade, e, por fim, ser capaz do sacrifício supremo da própria vida pela vida e pela continuidade histórica desse outro.

Cândido Rondon, um mato-grossense que virou militar um pouco antes da República, convicto adepto do positivismo como método de ciência e guia espiritual, tendo reconhecido que os povos indígenas que habitam o Brasil têm direitos prévios ä própria formação politica, social e cultural do Brasil, formulou a ideia de que cabia ao Estado brasileiro, respaldado pela nação, como entidade coletiva cultural e política, reconhecer os direitos indígenas sobre seus territórios habitados tradicionalmente à parte do reconhecimento dos outros territórios que faziam parte da nação constituída, e que cabia aos brasileiros que trabalhassem nesse sentido, via o órgão estatal criado em 1910, o Serviço de Proteção aos Índios (SPI), honrar esse compromisso até sob o custo de, no caso de ser intempestivamente atacado por índios que se sentissem invadidos em suas terras, não esboçar agressividade equivalente em retorno. Isto é, que os funcionários do SPI deviam, em última instância, “morrer, se preciso fosse, matar, nunca!”, em tais circunstâncias.

Acontece que ao longo de muitos anos, desde a criação do SPI, surgiram muitas ocasiões de enfrentamento que puseram em prova e comprovaram o espírito de autosacrifício de dezenas de funcionários dessa estirpe e desse jaez moral. Como um brasileiro se expor ao sacrifício da própria morte em favor de alguém que não é de sua família, de sua religião, nem de sua cultura, de certo modo nem de sua pátria, mas é tão-somente um ser humano!?

Pode-se pensar de muitos modos sobre como esse tipo de compromisso moral ocorreu a esse ponto. Pois bem, três ou quatro motivos emergem com força persuasiva. O primeiro é que, por esse viés filosófico, o índio é visto como possuidor de um direito imemorial sobre suas terras, e que o Brasil tem sido construído à sua revelia, contra sua vontade e em cima de sua vida e dos meios de sua sobrevivência.

Um posicionamento de respeito e autosacrifício seria uma compensação ou um ato de contrição que a nação brasileira cristã, representada por esse cidadão funcionário, estenderia a esse irmão sofrido, que recorre em último caso à defesa fatal de seu território, de sua cultura, de sua sociedade e de sua vida.

Um segundo motivo seria a consciência de que o índio não é um ser à parte dos brasileiros comuns, mas sim parte de sua formação demográfica e cultural. Isto é, que cada um de nós é um tanto indígena, como estes que continuam a viver como índios.

Um terceiro motivo seria o surgimento de uma consciência especial do brasileiro de que o índio, portador desses direitos, faz parte da humanidade em seu grau mais profundo e elementar, precisamente por parecer estar tão distante culturalmente do que se convém ser o brasileiro normal, mesmo sendo ele o brasileiro autóctone, por assim dizer. Este sentido tem o mais alto grau de reconhecimento da humanidade de alguém, da própria humanidade. Sendo assim, poucos países, em poucos tempos históricos já produziram sentimentos e compromissos dessa natureza.

Como quarto motivo, corolário do segundo motivo, seria do brasileiro não indígena sentir que a vida do índio é cheia de grandes aventuras, talvez aventuras que ele, brasileiro, teria já vivido no seu passado histórico, atávico, inconsciente, mas real. Sim, ele, brasileiro, já viu essa mata esplendorosa, essas savanas deslumbrantes, essa caatinga iridescente, e quer estar junto com seu habitante original e aborígene para também dela usufruir com gozo e com legitimidade histórica.

Seja por esses motivos, seja por outros mais, o que acontece é que o Brasil tem um exemplo de vida e de filosofia humanista que vai muito além de qualquer rasgo de imaginação de outros países, até de si mesmo, haja vista que nem é adequadamente conhecida e propriamente festejada.

Eis por que é possível vislumbrar que, mesmo diante de uma certa baixa autoestima do brasileiro, temos um bom motivo, uma boa base moral para acreditarmos que o Brasil como coletivo pode se determinar a sair de sua normalidade normativa, sua pasmaceira moral e ir além. Os brasileiros podem, para concluir, ser capazes de entender intrinsecamente o papel que lhes cabe exercer diante da grande questão que é a Floresta Amazônica.

Este papel é de estar com ela, usufruir dela com respeito, sabê-la importante para todos que dela dependem ou que a amam. A Amazônia é esse outro para além do humano, é o outro sacralizado que antecede a todos nós e que continuará quando nada mais de humano existir.

Mércio Gomes

Ph.D em Antropologia, presidiu a Funai entre 2003 e 2007. Atualmente leciona na UFRJ. Autor de diversos livros, mantém o blog O Brasil Inevitável.

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