9 de setembro de 1972. O início do fim

O aparelho de TV recém-adquirido, transpassado por vários golpes de baioneta.

Empresa Cidadã / 17:02 - 10 de set de 2019

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Um amigo gaúcho que, entre 1971 e 1973, viveu no Chile, a trabalho para a Comissão Econômica para a América Latina e Caribe (Cepal), sem vinculação político partidária, tinha comprado um aparelho de TV, mas, sem tempo para instalá-lo convenientemente, deixou o aparelho na própria embalagem de papelão em que o recebera.

No dia 9 de setembro de 1972, início do fim da democracia chilena, a Confederación del Transporte desencadeou um locaute de proprietários de caminhões, por prazo indeterminado, financiado pela CIA e liderado por León Vilarin, do grupo de milicianos neofascistas Patria y Libertad, visando impedir o plantio da safra agrícola 1973/1973 e desorganizando assim a economia chilena.

A primeira tentativa de golpe, conhecida como El Tanquetazo, uma aventura para tomar de assalto o palácio presidencial, fracassou. No entanto, a pressão política exercida pelos EUA, sob a presidência de Richard Nixon, sobre países e corporações norte-americanas, assim como sobre lideranças chilenas acabou no golpe de 1973, assumido pelo sanguinário general Pinochet. O presidente eleito morreu no palácio governamental, e o Chile amargou anos de trevas, ante a colaboração entre corporações de dentro e de fora do país.

O amigo gaúcho que lá viveu, ao chegar em casa à noitinha com a família, no dia do fracassado Tanquetazo, passou pelo desprazer de encontrar a caixa de papelão, ainda com o aparelho de TV recém-adquirido dentro dela, transpassada por vários golpes de baioneta, principalmente na face em que aparecia a expressão em inglês “this side up” (este lado para cima). UP, por infeliz coincidência, era a sigla da coalização partidária, Unidade Popular, que elegera presidente do Chile o médico e senador Salvador Allende Gossens (1908-1973).

 

Mais um caso perverso de engajamento com stakeholders...

Em sua página na Internet, assim se apresenta a Associação Ricoy, a mesma que teria instalações mantidas para torturar e espancar um jovem negro, com a utilização até de um chicote de fios entrelaçados (ainda não encontrado), por que este jovem teria furtado umas barras de chocolate.

Entre aspas: “Amais, Economax, Pão de Mel, Peri, Gimenez, Rei do Gado e Russi. Algumas dessas redes continuam com seus nomes originais até hoje, e outras já ganharam a Bandeira Ricoy Supermercados com a aquisição integral e oficial das lojas. Ao todo são 50 lojas, e isso reflete a seriedade do trabalho realizado até o momento. Portanto, quando você entrar numa loja do Ricoy Supermercados ou em alguma loja das bandeiras administradas pela Associação Ricoy, você vai encontrar antes de tudo, uma infraestrutura completa e preparada oferecer o que você mais merece: O RESPEITO.”

Então, mudando um pouco aquele velho ditado: A União Faz a Força. Para a Associação Ricoy, a união traz possibilidades e a força traz a sua satisfação. Bem-vindo ao Ricoy!”

A união bem poderia fazer a força de um boicote por consumidores indignados com um estabelecimento que mantém uma câmara de tortura equipada com chicote de fios entrelaçados (ainda não encontrado). Como estariam, ante a Polícia Federal, as licenças obrigatórias desses jagunços terceirizados, travestidos de seguranças, pela Associação Ricoy?

 

Lobo em penas de Ararajuba

Há muito tempo, não via nada tão tosco quanto a manifestação do empresário Luciano Hang, na semana da pátria, vestido de ararajuba, diante de uma réplica cafonérrima da Estátua da Liberdade de New York, como as que “decoram” a entrada das suas lojas.

Quase tão triste quanto ser processado por lavagem de dinheiro, escapar por prescrição, ou quanto assediar empregados a votar em candidato de sua pessoal conveniência, sob ameaça de perda do emprego.

 

Paulo Márcio de Mello é professor aposentado da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

paulomm@paulomm.pro.br

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