2.030 - parte II

Opinião / 14:00 - 9 de jan de 2001

Siga o Monitor no twitter.com/sigaomonitor

Continuamos a descrever as grandes tendências que deverão marcar o futuro. 8. Ordem econômica mundial As previsões da ordem econômica são mais relacionadas com a primeira metade do período 2001/2030. O comércio internacional continuará dando alto retorno às transações com os produtos e serviços do mundo desenvolvido, basicamente, produtos e serviços com alto conteúdo tecnológico embutido. O comércio internacional de grãos, minérios e outros produtos e serviços com baixo conteúdo tecnológico, com raras exceções, como o petróleo, continuará sendo pouco rentável. Esses são, basicamente, os produtos e serviços dos países subdesenvolvidos. O modelo de industrialização com alto consumo de recursos naturais continuará existindo, pois o modelo capitalista, existente hoje, assim exige para a maximização do retorno do capital investido. As indústrias do terceiro mundo, por absorção do modelo alheio, se baseiam, também, no alto consumo de recursos naturais e, assim, continuarão a ser. As grandes corporações, sediadas nos países do capitalismo vitorioso, dominarão a economia mundial, a política em cada um desses países, a Organização das Nações Unidas, o Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional e, com maior razão, a política nos países subdesenvolvidos. Algumas das entidades citadas poderão até desaparecer, por passarem a ser, totalmente, inócuas. O acordo multilateral de investimentos será, finalmente, aprovado nos primeiros anos do período em estudo. Este acordo trará grandes danos a todos os países que são hóspedes de empresas estrangeiras, ou seja, aos países subdesenvolvidos, pois não poderá existir qualquer forma de constrangimento para os negócios dessas empresas. Numa primeira fase, as grandes corporações mundiais dominarão os mais relevantes setores produtivos dos subdesenvolvidos. O lucro dessas corporações nesses países, obtido, na maioria das vezes, devido à ação de cartel, ao ser remetido para as matrizes alimentará o déficit crônico do balanço de pagamentos desses países e o endividamento será crescente. Não está-se citando a rolagem dos papéis da dívida, que é um fator preponderante para o seu crescimento. Nos países subdesenvolvidos, cada vez mais, o empobrecimento da sociedade será visível e os recursos para investimentos sociais minguarão. Com essa dívida externa impagável e devido ao baixo grau de politização das populações, os governos eleitos pelo povo, mas sem compromissos com o próprio povo, abrirão mão, paulatinamente, da soberania. Continuará existindo a traição das elites dominantes desses países para com o povo, fato este que persiste há séculos, pois elas serão, completamente, subalternas ao capital estrangeiro. Existirá um aprofundamento da distância entre as classes sociais, nos subdesenvolvidos, a qual exigirá a constituição de "guetos das elites", que estarão em flagrante minoria. Nessa época, a dolarização das economias subdesenvolvidas terá ocorrido. Nenhum dos países poderá conter o fluxo internacional de capitais, perdendo, os subdesenvolvidos, graus de liberdade para a administração das suas economias. Os recursos naturais não renováveis escassos desses países, assim como as reservas ecológicas, serão vendidos às corporações estrangeiras com o pretexto de abatimento da dívida. A subida vertiginosa do preço do petróleo trará, como conseqüências, a entrada de novas fontes geradoras para o suprimento mundial, todas com o custo da energia gerada mais caro, a diminuição do nível de consumo energético do mundo, por conservação ou pela impossibilidade de consumir no novo patamar de preços, e a existência de um forte componente inflacionário nas diversas economias. A esperança que novas tecnologias na área de energia irão compensar, ao mesmo nível de preço, a escassez crescente da principal fonte de suprimento irá se esvair. A fusão nuclear e outros atuais sonhos, para efeito de geração de grandes blocos de energia comercial, continuarão, até 2030, como sonhos. Os programas nucleares de reatores de fissão que tinham sido paralisados, em alguns países, reaparecerão com nova força. A necessidade de calefação dos países desenvolvidos, de clima temperado, só será atendida graças à queima das últimas reservas de petróleo ainda existentes, basicamente, em países subdesenvolvidos. A descrição das economias dos países desenvolvidos não é um dos objetivos principais desse artigo, por isso não se entrará em maiores detalhes. No entanto, é preciso dizer que a opulência dessas economias será uma marca constante, em parte graças aos acordos mundiais de comércio e patentes e às transações financeiras que os beneficiam. Os subdesenvolvidos pouco conseguiram durante o estabelecimento desses acordos. 9. Rendas per capita A concentração da riqueza no mundo ficará cada vez mais acentuada. Existirá um aprofundamento paulatino da divisão entre países ricos e pobres, o qual exigirá, sob a visão dos ricos, a constituição de um "cordão de isolamento sanitário", contendo, basicamente, Estados Unidos, Canadá, Europa e Japão, para barrar o perigo da invasão do resto do mundo. 10.Desenvolvimento tecnológico Os desenvolvimentos tecnológicos serão promovidos, basicamente, por corporações para gerar lucros e, em outros casos, com interesses militares para garantir o poderio. Alguns dos desenvolvimentos seriam destinados para conter o avanço de grandes fluxos migratórios no planeta e outros seriam armamentos destinados à dissuasão de adversários ou a operações de controle de recursos naturais escassos e preservação da ecologia em regiões subdesenvolvidas. "Operações militares cirúrgicas" serão muito comuns para resgatar esses recursos para aqueles que têm força e, portanto, têm o direito a usá-los. Nessas "operações", desenvolvimentos tecnológicos permitirão uma guerra quase por controle remoto, quando as baixas próprias serão próximas de zero e as do adversário serão imensas. Será, certamente, reativada, se algum dia foi paralisada, a pesquisa da bomba de neutrons, a qual poderá, também, ser usada em regiões subdesenvolvidas onde ocorram epidemias. Praticamente nenhum desenvolvimento tecnológico será feito para conter a fome e as doenças do terceiro mundo. A agricultura com os transgênicos, que teria como único fator positivo a possibilidade de acabar com a fome no mundo, será colocada à disposição da acumulação do capital. 11.Educação e cultura Nos países detentores da hegemonia, a educação será, ao menos tempo, universal e superficial para a grande massa, o que tem o objetivo de deixá-la apta a viver num mundo conectado pela rede mundial de computadores, mas sem grande capacidade para reconhecer a estrutura de poder e os meios de dominação de massa em que vive. Na Europa, a percepção dos fatos do mundo continuará sendo mais captada pelas diversas camadas da população. O europeu continuará tentando não ser dominado pela cultura hegemônica, mas nada garante que conseguirá resistir por muito tempo. Nos países de fácil dominação, a educação e a cultura do povo são altamente indesejáveis pelos dominadores externos e pela elite local cooptada. Portanto, nestes países, os analfabetos funcionais, aqueles que não sabem ler placas, bulas de remédios, manuais e jornais estarão, no mínimo, por volta de 50% da população. Aqueles que lêem artigos em jornais e revistas ou lêem livros continuarão sendo em torno de 0,5% da população, percentual esse composto dos cooptados e dos "angustiados". 12.Perspectiva de vida dos seres humanos Devido aos avanços da pesquisa médica, a perspectiva de vida dos seres humanos, nos países desenvolvidos, tenderá a crescer, devendo atingir até a 120 anos para os mais ricos. Nos países subdesenvolvidos, a perspectiva de vida dos seres humanos tenderá a diminuir, devendo atingir a 30 anos para os mais pobres, devido à fome, doenças, epidemias, lutas fratricidas, contato com a poluição etc. Conclusão Essa previsão do mundo foi elaborada com base nas ações dos principais atores mundiais, nos últimos anos. Se tudo continuar acontecendo com a mesma tendência que prevaleceu até o presente, o futuro para os países subdesenvolvidos, inclusive o Brasil, será o que acabamos de mostrar, desalentador. Esse artigo serve para alertar que não se deve deixar essa tendência continuar dominante, sob pena do futuro ser mais triste para os nossos filhos do que tem sido o presente para nós. Não existe, no nosso País, hoje, um projeto nacional sendo discutido pela sociedade. A elite nacional, com raras e honrosas exceções, não está preocupada com o que irá acontecer com a sociedade como um todo. Julgam a si próprios como sendo "cidadãos do mundo", pois irão morar em qualquer lugar desenvolvido, se a situação aqui degringolar. Havendo dúvidas se o futuro irá se desenrolar como descrito, que se discuta as projeções. Se existe mais de uma alternativa para a correção de rumos, que se analise cada uma delas. Enfim, que se planeje o futuro e que se lute para alcançá-lo. Mas, pelo amor de Deus, que se acorde da letargia atual. Paulo Metri Diretor da Federação Brasileira de Associações de Engenheiros - Febrae

Siga o Monitor no twitter.com/sigaomonitor