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‘Qual é o pente que te penteia?’

Seu Direito / 10 Setembro 2018

Nega do cabelo duro,

qual é o pente que te penteia,

qual é o pente que te penteia

qual é o pente que te penteia, ô nega?”

Teu cabelo está a moda

e o teu corpo bamboleia

minha nega, meu amor,

qual é o pente que te penteia, ô nega?”

(Elis Regina)

Não sei se concordam comigo, mas essa vibe do “politicamente correto” está tornando o mundo um lugar muito chato para viver. Já que por enquanto não temos outro lugar para ir, o negócio é a gente se arrumar por aqui mesmo e deixar de ser hipócrita. Antigamente não se falava em bullying, divã de analista, problemas de família, depressão, síndrome disto e daquilo.

A molecada que era assediada no colégio decidia as diferenças no recreio, na porrada, na brincadeira ou na gozação, botando no outro um apelido tão sem noção quanto hilário, mas que deixava o coleguinha roxo de raiva. E quanto mais ele acusava o golpe mais o apelido pegava e o sujeito ficava marcado para o resto da vida. Se não era na base dos apelidos jocosos, os meninos decidiam tudo no racha depois das aulas, e quem tinha alguma pinimba com o outro fazia questão de ir pro time adversário só pra entrar numa bola dividida com o desafeto e deixar uma bela mancha roxa nas canelas do sujeito.

As meninas eram mais dóceis e articuladas. Simplesmente se vingavam roubando os namorados umas das outras ou fazendo bailinhos em casa e não convidando a desafeta. Tudo light, tudo muito civilizado. No outro dia, uma amiga em comum aproximava as duas e elas se tornavam as melhores amigas do colégio, madrinhas de casamento e de formatura.

Hoje em dia, nada pode, tudo é proibido, tudo fere algum direito fundamental ou algum princípio que não está em lugar nenhum, mas os juízes inventam para “dar a cada um o que é seu”, qualquer que seja o cada um e o seu. Mas, concordo, há certos exageros que precisam mesmo ser coibidos.

Os boletins de jurisprudência noticiaram recentemente que uma empregada de call center de Xanxerê, no Oeste catarinense, foi “aconselhada” a “alisar o cabelo”. O caso foi julgado pela 1ª Câmara do Tribunal Regional do Trabalho da 12ª Região (SC), e a empresa condenada em R$ 7 mil por dano moral por discriminação racial. A empregada provou nos autos que a “orientação” teria partido da supervisora de recursos humanos, que, frequentemente, fazia críticas à sua aparência e recomendava que a empregada alisasse os cabelos ou os mantivesse presos para “cuidar de sua aparência” e manter um aspecto “arrumado”.

A partir disso, a moça teria sido alvo de piadas e gozação dos colegas. Embora a empresa negasse a “orientação”, a empregada provou ter recebido do próprio departamento de pessoal do patrão recomendação escrita onde a aparência “era um dos pontos a desenvolver” porque “alguns dias o cabelo está desarrumado, preferencialmente prender cabelo”.

Os juízes entenderam que “apontar como ponto negativo de um indivíduo em sua avaliação funcional a necessidade de prender ou alisar o cabelo significa discriminar pela aparência, como se critérios adotados pelo avaliador fossem os corretos” e que a empregada “teria o direito de usar o cabelo solto ou preso, liso ou em sua condição natural porque elemento integrante de sua identidade e instrumento de autoestima”.

Os casos de discriminação desse tipo são mais comuns do que se pensa. A Justiça do Trabalho de São Paulo já julgou um caso em que a empregada foi dispensada porque “flatulava” demais durante o horário de trabalho. Outra, foi dispensada porque engordara 20 quilos e trabalhava como recepcionista numa empresa em que o foco do negócio era justamente emagrecimento e estética corporal. Há casos de pessoas dispensadas por uso de barba, cabelo comprido, brincos, piercing, tatuagem, calças jeans rasgadas, saias curtas, maquiagem pesada, cabelo roxo. O rol de discriminações idiotas não tem fim.

Depois, quando um maluco pega uma peixeira e fura a pança de algum candidato a cargo público cujas ideias não o agradam, as pessoas se estarrecem e se perguntam onde foi que erraram. O mundo, senhores, se tornou um lugar muito chato de viver. Mas a culpa não é do mundo. O mundo é o mesmo desde que nasceu. As pessoas é que nunca fizeram parte da paisagem.