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‘O Brasil já vai à guerra’

Há quase 60 anos, o menestrel Juca Chaves nos brindava com profética modinha.

Empresa-Cidadã / 26 Fevereiro 2019 - 18:23

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Cabo Frio, município do Rio de Janeiro, terá como tema da folia a inclusão de pessoas com deficiência. Denominada “Carnaval para todos”, a festa já tem o rei momo e a rainha do Carnaval escolhidos, o Carlos Augusto e a Thays Helena, ambos com síndrome de Down.

No dia 1º deste mês, conforme a prática, o prefeito Adriano Moreno entregou a chave da cidade ao rei momo. De 2 a 5 de março, um espaço adaptado para PcD será montado na Praia do Forte, para a realização de bailes carnavalescos, assistidos por animadores. Entre as instituições que apoiam o Carnaval para todos, estão a Associação de Blocos e Atividades Carnavalescas de Cabo Frio (Abaccaf), a Conviver e Aprender, a APPA Casa Azul, a Mães Coragem, O Programa Eficiente e o Núcleo de Dança Allan Lobato.

 

Bangladesh é aqui ou aqui é o Haiti?

Na quarta-feira, 20 de fevereiro, 78 pessoas perderam a vida e 50 ficaram feridas em um incêndio no centro de Daca, capital de Bangladesh. Segundo o comandante do corpo de bombeiros, o incêndio teria começado em um botijão de gás, espalhando-se pelo prédio em que eram armazenados produtos químicos inflamáveis.

Conforme publicado na coluna Empresa-Cidadã “Rana Plaza. Até quando?” (quarta-feira, 1º de maio de 2013), incêndio de grandes proporções, semelhante a este, no prédio conhecido como Rana Plaza, matou mais de 390 pessoas, em Savar, bairro de Bangladesh, em 2010. Na ocasião, as autoridades locais anunciaram a erradicação da armazenagem de produtos químicos inflamáveis, mas ficou só no anúncio.

O Rana Plaza era ocupado por cerca de 3 a 4 mil trabalhadores, distribuídos por cinco fábricas de roupas, entre outras ocupações. Trabalhadores com jornadas de trabalho superiores a dez horas diárias, sete dias por semana, sem férias e sem qualquer garantia ou benefício trabalhista. Em troca, remunerações que não ultrapassam o equivalente a R$ 75 ao mês. A indústria de confecções responde por 80% das exportações de Bangladesh e por 40% da mão de obra industrial.

Em 2012, na mesma região, um incêndio matou mais de 100 trabalhadores, ao queimar uma fábrica que produzia para a rede norte-americana Walmart. Em 2005, 61 trabalhadores do setor têxtil morreram e 86 ficaram feridos no desabamento de um edifício de nove andares, que reunia fábricas deste mesmo ramo, na região do Rana Plaza.

Estas instalações tumbeiras existem em diversos países. Muitas vezes, o trabalhador dorme em instalações precárias da própria fábrica, para que possa ser explorado até a última gota de suor. Os beneficiários deste trabalho aviltado são grifes e etiquetas bem conhecidas. Entre elas estão a espanhola Mango, a irlandesa Primark, a canadense Loblaw, distribuidora da indústria de vestuário Joe Fresh, as inglesas Tesco, Sainsbury’s e Next, a italiana Benetton e as norte-americanas H&M, Walmart e Gap.

Exploram os baixíssimos custos do trabalho e, quando ocorre a tragédia, repetem como um mantra – desconheciam as condições de trabalho e passarão a exigir melhores condições dos seus fornecedores, enquanto abarrotam as suas lojas com peças de vestuário em que, silenciosas, mas eloquentes, constam as etiquetas “made in” Bangladesh, Vietnã, El Salvador, Honduras, China etc. Fazem parte do ciclo desta economia da morte consumidores embriagados com os baixos preços exibidos nas etiquetas, e que não se perguntam como se chega a preços tão inferiores ao normal. Pena que o esquadrão da moda não se ocupa desses casos...

 

Vice’

A produção biográfica de Adam McKay, o filme Vice, concorreu ao Oscar em oito categorias, inclusive a de melhor filme. Independentemente das premiações que recebeu ou que deixou de receber, o seu valor não está nos prêmios, mas no talento de Adam McKay também como argumentista, no desempenho convincente de Christian Bale no papel do ex-vice presidente Dick Cheney e nas caracterizações que beiram a perfeição, como nos casos de Steve Carell, no papel do escorregadio ex-secretário de defesa dos EUA Donald Rumsfeld, de Tyler Perry, encarnando o ex-secretário de Estado general Colin Powell, além do próprio Christian Bale, um consagrado ator, já contemplado com um Oscar, pelo desempenho em The fighter – Último Round.

Na realidade bem capturada pelo filme de Adam McKay evidencia-se a associação repugnante da ambição de Dick Cheney e da falta de escrúpulos em fazer a própria empresa (a Halliburton, fornecedora de equipamentos para empresas petrolíferas) lucrar em consequência da guerra contra o Iraque (deflagrada na mentira confessada de que Sadan Hussein disporia de armas de destruição em massa), além de teses oportunistas de direito (sugeridas pelo futuro juiz federal Scalia, ultraconservador) sobre o poder incontestável do presidente e da invisibilidade na Constituição de uma instância de vigilância do poder do vice-presidente.

Esse cipoal de argumentos, a outros aspectos somados, como a personalidade frágil e confusa do presidente George W Bush (período 2001/2008), fez de Dick Cheney o todo poderoso do complexo industrial militar (conforme Eisenhower) norte americano.

 

Brasil já vai à guerra’

Há quase 60 anos, a irreverência do menestrel Juca Chaves nos brindava com esta profética modinha:

Brasil já vai a guerra / Comprou um porta-aviões / Um viva pra Inglaterra de oitenta e dois bilhões / Mas que ladrões / Comenta o zé povinho / Governo varonil / Coitado coitadinho / Do banco do brasil / Há há, quase faliu / Enquanto uns idiotas / Aplaudem a medida / E o povo sem comida / Escuta as tais lorotas / Dos patriotas / A classe proletária / Na certa comeria / Com a verba gasta diária / Em tal quinquilharia / Sem serventia.

Porém há uma peninha / De quem é o porta-aviões / É meu, diz a Marinha / É meu, diz a aviação / Ahhhh! Revolução! / Brasil, terra adorada / Comprou um porta-aviões / Oitenta e dois bilhões / Brasil, oh pátria amada / Que palhaçada.

Paulo Márcio de Mello é professor aposentado da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

paulomm@paulomm.pro.br

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