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#FicaTemer

Conversa de Mercado / 05 Outubro 2018

O rumo chulo que tomou o processo eleitoral brasileiro leva ao título desta coluna. Não há o que falar sobre a economia, que patina a mercê de bolsonaristas versus esquerdopatas. A lógica atual é: ou você é pró-capitão, a favor da família tradicional, das regras, dá ética e blá blá bla, ou é um marxista fedorento que quer a volta da corrupção. “Precisamos livrar o país da esquerda, da Ursal... O Regime Militar fez isso em 64... Por que não agora?” Dentre estes e outros absurdos que se lê nas mídias sociais, não há como tirar outra conclusão: o Brasil está doente politicamente, e a economia anda a mercê da política.

No cotidiano, as pessoas deixaram de ter senso crítico e se fecham em grupos de WhatsApp para receberem exatamente aquilo que faz sua cabeça. Se lerem qualquer coisa adversa à sua visão, bradam que tal veículo virou de esquerda ou bolsonarizou. Notícias falsas dão lugar à realidade, e se bloqueia no Facebook aqueles com opiniões contrárias às suas. Não há debate, não há nem sequer ideologia. A falta de conhecimento seja de História, Filosofia ou de Economia leva aos extremismos. Se os argumentos torpes falham, parte-se para a intimidação. As denúncias de trabalhadores que sofreram pressão por direcionamento do voto cresceram. Os Ministérios Públicos do Trabalho registraram 121 queixas contra 23 empresas nos últimos quatro dias.

Temer, neste sentido, deixará saudade. Saudade do tempo em que se podia tratar do que um presidente deve tratar: discutir políticas públicas com dados reais e buscar um caminho para o retorno do crescimento econômico e das resoluções da mazela fiscal do Brasil. Tudo bem, ele não encontrou. Se tivesse encontrado, o cenário seria outro, e sairia como herói em vez de vampiro. Foi o tapa-buraco que tivemos, mas é melhor ter um tapa-buraco no poder com o propósito de reestruturar o país do que... enfim...

A desculpa para as bolsonarices é de que é preciso conter a escalada comunista que pode chegar ao Brasil. Porém a questão é mais embaixo. Existe comunismo? Não estamos mais na Era dos Extremos de Hobsbawn, quando o anticomunismo era muito mais extremo nos EUA, onde não existiam comunistas, do que em outras regiões que tinham partidos de esquerda. O marxismo mostrou-se utópico e impraticável, mas deu bases para o Estado de bem-estar social, que surgiu justamente para combater possíveis revoltas da população.

Polarizar entre Adam Smith e Marx é afundar a discussão econômica. Ambos tinham mais em comum do que se pensa em termos de pensamento econômico. Afinal, a teoria do segundo baseia-se no modelo do primeiro. A história econômica mundial provou que sempre que a gangorra pende para um lado, o desequilíbrio leva a tragédias. É só parar para analisar as causas da crise de 1929, da Segunda Grande Guerra e de tantas outras intervenções militares.

Nem o PT nem o PDT são partidos de esquerda, vide a era Lula que encheu o cofre dos bancos. Tampouco, Bolsonaro é de direita, vide seu currículo parlamentar. A manipulação das massas é que gerou os estereótipos, e a Operação Lava Jato, ao desmoralizar completamente o poder público e espetacularizar as denúncias, foi importante arma para isso.

A discussão não é entre esquerda e direita. A pauta atual é qual deve ser o tamanho do Estado. Num país de extrema desigualdade como o Brasil, não se pode defender o fim de políticas públicas que amenizem o problema. É um erro acreditar que o país vá crescer tirando renda da população. Qualquer um, com o mínimo conhecimento em economia, sabe que renda gera consumo, e este último gera renda. Assim, a engrenagem gira. Mas também não se deve taxar os dividendos. A renda de dividendos já é tributada. Ao fazer isso, o governo inibe novos investimentos e novamente leva a engrenagem a parar de girar.

São propostas como estas que levam à falência do Estado, e aqui não se trata do lado fiscal! O rumo das eleições demonstra que os brasileiros estão perdidos com convicção. A economia virou problema secundário. O mercado financeiro? Ah, este está ganhando dinheiro até o capitão repensar se será mesmo este grande liberal a que se propôs.