‘Arte Degenerada’

Empresa-Cidadã / 10 Outubro 2017

Traduzida do alemão “Entartete Kunst”, Arte Degenerada foi como ficou conhecida a investida de Hitler, na Alemanha nazista, contra as manifestações artísticas modernistas. Ele próprio teve o seu ingresso na Academia de Belas Artes recusado, em 1907, por escassez de talento artístico. Passados 30 anos da reprovação, anunciaria a exposição Arte Degenerada.

 

A exposição foi organizada por Adolf Ziegler, presidente da Câmara de Artes Plásticas do III Reich, na cidade de Munique, e tinha o propósito de esculachar com pinturas, esculturas, gravuras, desenhos e livros tidos como impuros pelos nazistas. Degenerada foi o adjetivo emprestado da biologia, para classificar espécies que, uma vez modificadas, não poderiam mais ter a identidade original de espécie.

 

Mais de 600 trabalhos, incluídos alguns de Picasso, Lasar Segall, Henri Matisse, Paul Klee, compunham o acervo, expostos de forma a menosprezá-los, sem alinhamento, sem iluminação adequada e com cartazes ou faixas depreciativos. Em seu ataque contra a arte, os nazistas chegaram a fechar a notória escola de arte Bauhaus. Entre os movimentos artísticos considerados como “degenerados” pelos nazistas constaram o Cubismo, o Expressionismo, o Surrealismo, o Dada e o Bauhaus.

 

É preciso estar atento às analogias com algumas coisas que acontecem nos dias de hoje. Pode não ser mera coincidência...

 

Prêmio Nobel de Economia ‘non eq-ziste’

Richard Thaler foi anunciado como o “Prêmio Nobel de Economia 2017”, pelo desenvolvimento de explicações da chamada contabilidade mental, que mostra a presença da irracionalidade nas decisões de caráter econômico. Este é um controvertido campo do discurso teórico da economia, que por muito tempo foi intoxicado com a ideia de que, no que se refere às decisões econômicas, consumidores e empresas desempenham com plena racionalidade.

É como se o cidadão, na condição de consumidor, sempre procurasse obter o melhor, conhecido o custo das mercadorias, e as empresas marchassem como um exército em dia de desfile de gala, todos no mesmo passo e no mesmo sentido, da busca pelo lucro máximo. No século passado, alguns acadêmicos ousaram um pouco mais, reconhecendo que, além das questões do íntimo subjetivo de cada um, como limitações cognitivas (o homem não sabe tudo no jogo da economia e das finanças), das preferências sociais e das falhas de autocontrole (“de perto, ninguém é normal”), há influências, de fora para dentro, capazes de empastelar o discurso arrumadinho dos chamados marginalistas.

As limitações cognitivas levam ao uso de informações na hora de decidir (e este custo é negligenciado na teoria mais tradicional); o risco moral (o outro lado pode ter uma carta na manga que eu desconheço) somados ao efeito das interrupções no autocontrole (como um colecionador) criam um campo maior de observação que foi explorado por Thaler e o levou ao equivalente a US$ 3 milhões do prêmio oficialmente chamado de Sveriges Riksbank de Ciências Econômicas em Memória de Alfred Nobel, já que não constava da relação original do Prêmio Nobel, instituído pelo criador da dinamite, em 1895. Perguntado como pretendia utilizar o valor do prêmio, Thaler respondeu que “da forma mais irracional possível”. O primeiro Prêmio Sveriges Riksbank foi atribuído em 1969 a Ragnar Anton Kittil Frisch e Jan Tinbergen.

Moral da história é que a economia é mais humana quando olha para as ciências ao seu lado, e que Prêmio Nobel de Economia “non eq-ziste”.

 

Agenda

As Bandeiras da Revolução: Pernambuco 1817-2017: A Revolução Pernambucana de 1817 foi a primeira tentativa de instalar a forma republicana de governo no Brasil, e esta exposição reúne documentos sobre o movimento e trabalhos de artistas visuais que se valem da revolução para constatar que, após dois séculos, vários dos preceitos republicanos ainda estão por ser consolidados em Pernambuco e no Brasil.

Além disso, apresenta bandeiras criadas por movimentos de origem e abrangência variada que atualizam demandas de igualdade presentes na Revolução de 1817. Com curadoria de Moacir dos Anjos e José Luiz Passos, a mostra expõe trabalhos de Ana Lira, André Parente, Fábio Tremonte, Frente 3 de Fevereiro, Graziela Kunsch, Jaime Lauriano, José Rufino, Lívia Aquino, Lourival Cuquinha, Marilá Dardot, Paul Setúbal e Traplev. Acontece na Galeria Massangana, em Recife, de 8 de outubro até 3 de dezembro.

 

No subúrbio da modernidade – Di Cavalcanti 120 anos: No mês em que se comemora 120 anos do nascimento de Emiliano Di Cavalcanti, a Pinacoteca abre exposição com mais de 200 obras do artista, entre pinturas, desenhos e ilustrações. Com curadoria de José Augusto Ribeiro, a mostra pretende não só trazer obras emblemáticas de Di Cavalcanti, um dos mais importantes artistas do modernismo brasileiro, como também apresentar aspectos menos conhecidos de sua trajetória, como a sua condição de membro do Partido Comunista do Brasil (PCB), ilustrações que criou para capas de discos e charges para revistas. Individual na Pinacoteca, em São Paulo, até 22 de janeiro de 2018.

 

Paulo Márcio de Mello é professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

paulomm@paulomm.pro.br

http://pauloarteeconomia.blogspot.com